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Oitenta e Um
Em 1956, Guararema é tomada pelo horror após o assassinato brutal de uma menina. Enquanto a polícia falha em encontrar respostas, uma mulher acredita que o mal vai além do humano e pode voltar a fazer mais vítimas.
Gênero: terror
Classificação indicativa: 16+
(violência explícita, temas perturbadores)
Segunda Edição: 17 de julho de 2024.
Capítulo 1
Guararema, 1956. Uma cidade de ruas de terra batida, missas de domingo e portas que ninguém trancava à noite. As colinas verdes cercavam o povoado como paredes, e o Rio Paraíba do Sul cortava a paisagem num murmúrio constante — o único ruído que a maioria dos moradores conhecia depois do pôr do sol.
Foi Ataíde quem sentiu o cheiro primeiro.
Voltava do trabalho na Fazendo do Banco com mais três companheiros, a enxada nas costas e a fome apertando o estômago, quando o vento trouxe algo que não era terra nem mato. Era doce e podre ao mesmo tempo, um cheiro que gruda na garganta.
— Isso é bicho morto — disse Zé Corumba, sem parar de andar.
Ataíde parou. Farejou de novo, na direção da Pedra Montada, que se erguia logo ali, imponente, como sempre esteve, indiferente aos homens que passavam a seus pés havia gerações.
— Bicho morto não cheira assim — falou, e já estava caminhando para dentro da mata antes que os outros pudessem discordar.
Foi Zé Corumba quem viu primeiro o vermelho escorrendo pedra abaixo, secando em filetes escuros sobre a pedra clara. Foi ele quem gritou o nome de um santo e caiu de joelhos. E foi Ataíde, o mais corajoso ou o mais tolo dos quatro, que subiu até o topo da pedra e viu o que restava de Maria Clara.
Ele nunca mais contou a ninguém os detalhes completos. Disse apenas o essencial à polícia: que a menina estava amarrada, que os olhos não estavam mais lá, e que a língua também não. Guardou o resto para si, e levaria aquilo consigo até o caixão.
A notícia chegou à cidade antes mesmo que o Padre João fosse avisado. Correu de porta em porta como água de enxurrada do Ribeirão Nogueira, e por volta das seis da tarde daquela segunda-feira, 14 de maio, não havia uma alma em Guararema que não soubesse o nome da menina morta.
Maria Clara tinha doze anos. Era filha única de um sapateiro e, todo sábado, ajudava a mãe a vender ovos na feira — sempre com aquele jeito atencioso de contar o troco duas vezes antes de entregar, como se errar um tostão fosse a pior coisa que pudesse fazer a alguém. Sorria fácil, cumprimentava todo mundo pelo nome, e tinha o hábito de guardar os ovos mais bonitos, os de casca mais lisa, para as senhoras mais velhas — "esses são pra dona Filomena", dizia, sem que ninguém pedisse. Era desse tipo de gentileza pequena, quase invisível, que faz uma cidade inteira sentir que perdeu alguém da própria família. Todos a conheciam.
Os policiais de Mogi das Cruzes chegaram na manhã seguinte, trazendo consigo um perito que nunca tinha visto nada parecido — e disse isso, em voz baixa, para um colega, sem saber que seria ouvido. O corpo estava amarrado pelos pulsos e tornozelos no topo da pedra, os braços abertos como se a tivessem oferecido a alguma coisa lá em cima. Os cortes profundos desciam pelos dois braços. O abdômen estava aberto e cheio de terra, como se algo tivesse sido plantado ali dentro, e não retirado.
A perícia não conseguiu determinar a causa da morte. Não havia explicação para o volume de sangue ausente do corpo, nem para a limpeza dos cortes — como se tivessem sido feitos devagar, com cuidado, e não com fúria.
Guararema, que até então media o tempo pelas colheitas e pelas festas de santo, passou a medi-lo de outra forma: antes e depois de Maria Clara.
As mães passaram a trancar as portas ao anoitecer. As crianças, proibidas de brincar na rua, espiavam o mundo pelas janelas. Um silêncio novo, pesado, se instalou sobre a cidade — o silêncio de quem escuta demais, à espera de um som que não devia vir.
Alguém disse que fora um bicho do mato, nunca visto antes. Alguém disse que fora um forasteiro, um andarilho que passava pela região havia semanas, dormindo em beiras de estrada, pedindo comida nas portas. As más línguas já apontavam para ele antes mesmo que a polícia tivesse um único indício.
Outros, em voz mais baixa, falavam de coisas que a Igreja preferia não ouvir: pactos, sacrifícios, um mal antigo que a terra guardava e que sem saber como, havia acordado.
Ninguém sabia, ainda, que aquele era apenas o primeiro nome de uma lista que a cidade levaria décadas para esquecer.
Capítulo 2
Vinte e sete dias depois, Joana contou os dias errado pela primeira vez.
Era um hábito que tinha desde que Aninha nascera — contar a idade da filha em dias, não em anos, um gesto bobo de mãe apaixonada. Aos dez anos e alguns meses, Aninha já reclamava daquilo, revirando os olhos. Naquela noite, esperando a filha voltar da casa da vizinha, Joana se pegou contando os minutos, depois as horas, e então percebeu que havia perdido a conta — e que não sabia mais dizer havia quanto tempo Aninha tinha saído.
Foi esse esquecimento, pequeno e bobo, que a fez correr para a rua descalça.
Mario ficou em casa parado no meio da sala por um tempo que não soube medir, olhando a porta aberta, como se olhar bastasse para trazer a filha de volta por ali. Depois saiu também. Não gritou o nome dela como Joana gritava. Foi andando, calado, batendo de porta em porta, e cada vizinho que abria e dizia não ter visto nada parecia, aos olhos dele, estar escondendo alguma coisa.
A cidade toda lembrava...
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