
Expresso da Dor
Na década de 50, um amor proibido desafia preconceitos e termina em tragédia. Separados pela violência e pelo destino, Elisa e Sebastião têm suas vidas marcadas por dor, perdas e forças sombrias que ultrapassam a morte, dando origem a uma lenda que ainda assombra as estradas de Guararema.
Gênero: romance trágico/terror
Classificação indicativa: 16+
(temas sensíveis, violência, sofrimento psicológico)
Tempo de leitura: 20 a 30 minutos
Primeira Edição: novembro de 2024.
Parte 1
Em meio à atmosfera conservadora e carregada de preconceitos da década de 50, entre os limites de Guararema e Mogi das Cruzes, florescia um amor proibido e secreto. Elisa 16 anos, uma jovem aristocrata, branca de olhos cor de mel e cabelos castanhos, nutria uma paixão ardente por Sebastião 19 anos, um rapaz negro de sorriso encantador e olhar intenso, funcionário na fazenda da família de Elisa. De mãos calejadas pelo trabalho pesado, cuidava da plantação de caqui, onde por diversas vezes foi usada como refúgio amoroso. Entre as fileiras de árvores carregadas de frutos, encontravam um refúgio, um lugar onde o tempo parecia parar e o amor florescia como os caquis. Ali, sob a sombra de um caquizeiro frondoso, juras de amor e promessas de uma união eterna eram feitas, beijos eram tão doces quanto a fruta madura, e os carinhos, quentes como os raios de sol que passavam entre as folhas.
Em cada encontro às escondidas, o desejo se intensificava. Sob a copa frondosa do caquizeiro, a paixão aumentava em cada toque. Sebastião, com as mãos firmes e quentes, deslizava-as pelo pescoço aveludado de Elisa, delicadamente desabotoava um a um os botões do vestido revelando a pele branca e macia de seus ombros, os dedos como plumas ele acariciava levemente os seios de Eliza, os olhos se encontravam em um mar de desejo. A pele quente de ambos se colava em um abraço apertado, unindo o corpo de um ao outro. A paixão de Elisa por Sebastião era intensa e avassaladora, desafiando todas as normas sociais da época. A diferença social e racial entre eles era um abismo intransponível aos olhos da sociedade, e a ideia de um relacionamento amoroso entre eles era inaceitável, um casamento então não se cogitava. O pai de Elisa, um homem conservador e racista, desprezava Sebastião e tudo o que ele representava. A paixão de sua filha por um homem negro era um golpe em seu orgulho e seus valores. Ele faria de tudo para separar os dois, mesmo que isso significasse causar sofrimento à própria filha.
Durante os encontros, Elisa e Sebastião alimentavam a esperança de um futuro juntos. Sebastião havia garantido a Elisa que, assim que juntasse o dinheiro necessário, eles partiriam de trem para o Rio de Janeiro, onde poderiam se casar, viver livremente e amar sem medo. O pai de Elisa inconformado e querendo colocar um basta nesse romance, em uma explosão de raiva, expulsou Sebastião da fazenda e proibiu Elisa de vê-lo novamente. Desesperada, a jovem suplicou para que o pai reconsiderasse a demissão de Sebastião, mas ele se manteve firme em sua decisão e mandou que os empregados da fazenda trancassem Elisa em seu quarto, oferecendo apenas água e sopa. Elisa chorava copiosamente todos os dias, e no final do vigésimo primeiro dia trancafiada em seu quarto, escutou três batidas em sua porta. Fraca, sem ter comido e bebido o suficiente ao longo dos dias, olhou em direção a porta e mesmo com a visão embaçada, viu um papel sendo empurrado pela fresta da porta e o chão.
Sem saber ler e escrever Sebastião tinha pedido a um de seus amigos que trabalhava na fazenda, que escrevesse um bilhete e o entregasse para Elisa. E assim foi feito. No bilhete estava escrito: “Amada Elisa, O dia da nossa fuga se aproxima. Embale seus pertences em uma pequena trouxa e prepare-se para viajarmos em direção ao oceano. O menino Jesus será nosso guia neste dia especial. Com eterno amor, Sebastião.” Elisa e Sebastião logo iriam fugir.
Parte 2
Eliza muito esperta logo decifrou o bilhete que viu sendo empurrado pela fresta da porta e o chão, “...viajarmos em direção ao oceano...” seria o destino prometido que tanto falava seu amado, o Rio de Janeiro, e tendo como guia o “...menino Jesus...” o dia seria o Natal que se aproximava rapidamente faltando apenas duas semanas.
O dia 25 de dezembro de 1955 tinha nascido, enfim era Natal, Elisa ansiosa, mal tinha dormido esperando seu amado resgatá-la para viverem essa paixão tórrida que um sentia pelo outo. Os minutos e as horas foram passando e nada de seu amado. Elisa cada vez mais ansiosa, trancada dentro do seu quarto caminhava de um lado para o outro. As horas foram passando e só no final da tarde com a luz do sol indo embora foi que percebeu uma movimentação estranha na fazenda. Aprisionada em seu quarto ela só ouvia murmúrios, vozes de pessoas que não conhecia. Sabia que algo estava acontecendo e que por isso talvez o Sebastião não aparecera, mas sem informação e contato com ninguem só sua imaginação fértil e apaixonada a fazia companhia. Sua esperança era que durante anoite, quando todos já estivessem dormindo Sebastião aparecesse para salva-la das garras de seu pai racista e autoritário, e então viver seu grande amor, mas Sebastião não apareceu.
Os meses foram passando, Elisa cada vez mais abalada pelo abandono de Sebastião e com a insensibilidade e a indiferença de seu pai, se encontrava em estado lastimável. Elisa aceitou que seu quarto tinha se tornado sua prisão, onde sua dor era sua única companhia. As paredes, antes adornadas com boiserie, entalhes em madeira e flores coloridas agora estavam sem cor e secas como seu coração. A cama, macia e convidativa, se tornou um leito de sofrimento e dor, lenções sujos e mau cheirosos, passava horas entregue aos pensamentos torturantes sem vontade de se levantar. A saúde física e mental de Elisa começou a se deteriorar rapidamente. A falta de apetite, o sono irregular a deixaram fraca e pálida. Seus olhos, antes brilhantes, agora estavam opacos e sem vida. A esperança e a paixão, chamas que a aqueciam, se apagaram, deixando-a em um abismo de desespero e solidão. A cada noite, antes de adormecer, murmurava um pedido: que a dor e o desespero a levasse até a morte.
Três longos anos de sofrimento e angustia se passaram, Elisa já fora de si, catatônica, olhava incessantemente para o nada, não interagia com ninguem, era outra pessoa, sem vontade de viver, aquela jovem alegre que nutria uma paixão ardente por Sebastião já não existia mais, até que em uma noite de maio de 1958 ela ouviu uma voz. “Ele está te esperando lá fora.”
Parte 3
Com sua saúde física e mental debilitada e aparência extremamente frágil, o quarto de Elisa tinha deixado de ser trancado há meses, e após ouvir a voz dizer “Ele está te esperando lá fora” em um impulso, mas sem saber ao certo quem a aguardava lá fora, Elisa empurra a porta, que se abre lentamente e avista uma figura misteriosa, alta e esguia, de pele pálida como parafina, e seus olhos, dois rubis que brilhavam na penumbra do corredor que pareciam penetrar na alma. Com um sorriso enigmático, o ser se voltou para a Elisa estendeu a mão direita com dedos e unhas longas e sem mexer os lábios falou. “Tenho o que você busca minha querida, basta a senhorita segurar minha mão e desejar, e eu acabo com seu sofrimento.”
No mesmo instante o pensamento de Elisa foi tomado pela imagem do seu amado Sebastião, sorrindo, surgindo por de trás de um caquizeiro abrindo os braços e aguardando ela correr enfim para ele. Desejando estar nos braços de seu amado mais uma vez, ela segura firme a mão estranha da entidade que a conduz em pensamento mostrando o que acontecera no dia 20 de dezembro de 1955, cinco dias antes da fuga planejada e descrita no bilhete.
Na mente de Elisa uma imagem aos poucos foi se formando, revelando um quadro revoltante, são dois homens conversando, um é seu pai, de rosto contorcido pela fúria, com o dedo indicador em riste a centímetros do rosto do outro, o outro, é seu amado Sebastião, de cabeça baixa, pálido e amedrontado, segurava em suas mãos trêmulas duas passagens para o Rio de Janeiro no “Expresso Baiano” com partida no dia de Natal. Com vergonha e extremamente humilhado pelo pai de Elisa e com receio dele concretizar a ameaça feita contra a vida da própria filha Sebastião desiste da fuga com sua amada.
Natal, vinte e cinco de dezembro de 1955. Chega o dia da fuga. Sebastião, em prantos e amedrontado pelas ameaças do pai de Elisa, embarca no "Expresso Baiano" sem sua amada. Ele escolheu deixá-la em segurança e viva, pois, sabia que a morte de Elisa também o mataria aos poucos. A lembrança dos encontros amorosos na plantação de caquis, o olhar suplicante de Elisa, quando ele a abraçou pela última vez, o dilacerava por dentro. Com um nó na garganta, desistiu momentaneamente do amor da sua vida, optando pela segurança de sua amada, mesmo que isso significasse renunciar a própria felicidade. Mas seu destino ainda não estava selado, o maior desastre de trem da história de Guararema estava para acontecer.
Parte 4
Ainda na mente de Elisa a figura demoníaca, agia mostrando o que aconteceu no dia 25 de dezembro de 1955. O trem de passageiros conhecido por todos como “Trem Baiano”, tinha se chocado com outro carregado de carvão. Gritos de dor e desespero interrompeu o Natal de todos os moradores de Guararema, cobrindo a cidade de luto e tristeza. O desastre teve proporções inimagináveis, nunca visto antes. A mente de Elisa foi tomada por fogo e destroços, corpos espalhados entre as ferragens retorcidas e lascas pontiagudas dos vagões de madeira. Passageiros agonizando, homens pedindo socorro, mulheres gritavam em busca de seus filhos, sangue e pedaços de corpos por todos os lados e então, a figura demoníaca fez com que Elisa visse o corpo de seu amado Sebastião, todo mutilado pelo acidente no Expresso Baiano. Sebastião tinha sido uma das 16 vítimas fatais do desastre que a Elisa nem teve conhecimento na época.
Sem saber da morte de Sebastião, Elisa havia firmado um pacto com a figura demoníaca que surgira à entrada de seu quarto. Sentindo-se traída e desorientada por ver o Sebastião sem vida, e por tudo que tinha visualizado em sua mente, sem a posse de sua alma, ela parte sem rumo, em busca de absolvição e redenção. Mesmo fraca e desorientada, caminhou por longas horas, vestindo uma camisola branca e com os pés machucados cobertos de sangue e terra. Cada vez mais debilitada e fraca ao chegar à beira de uma ribanceira, ela desfalece e despenca para dentro da mata, onde ninguém poderia ouvi-la ou salva-la. Com o desaparecimento de Elisa, como uma maldição a fazenda de seu pai entrou em decadência, nada que fosse plantado crescia, e os caquizeiros antes frondosos agora estavam secos e sem vida. A fazenda tinha virado um lugar triste e cheio de arrependimento. Em meio ao abandono e consumido por seus próprios fantasmas, o pai de Elisa tirou a própria vida com um tiro na boca, levou consigo os segredos de uma tragédia que marcou para sempre a história daquela família.
Muitos anos se passaram e em maio de 1969, ao iniciar obras de recapeamento da avenida Francisco Rodrigues Filho, que liga a cidade de Mogi das Cruzes a Guararema, servidores do D.E.R ouviram gritos de socorro vindos da mata. Ao adentrarem encontraram uma ossada. Não demorou muito para que, influenciados por sonhos estranhos, constantes e insistentes, decidissem construir uma gruta para abrigar os restos mortais achados da mata. Após a construção da gruta, de forma surpreendente e sobrenatural, uma fonte de água límpida e cristalina começou a jorrar da encosta, que permanece fluindo até hoje. Desde então, todo mês de maio, uma mulher vestida com uma camisola branca, com os pés sujos de sangue e terra, passou a assombrar os motoristas que transitam pela estrada em busca de seu amor. A lenda afirma que a água que flui incessantemente seriam as lágrimas da infeliz Elisa, que ainda anseia por absolvição e um reencontro com seu amado Sebastião.
FIM.
Embora seja uma obra fictícia, alguns eventos e personagens existiram de verdade. Ser negro no Brasil ainda é resistir todos os dias.
Texto protegido por direitos autorais. É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia do autor.